Negligência parental: Uma violência infantil recorrente e silenciosa

Negligência parental: Uma violência infantil recorrente e silenciosa

Um estudo recente realizado pela Universidade de Harvard apontou que a negligência parental é tão prejudicial quanto o abuso e outros casos de violência explícita, no que diz respeito ao desenvolvimento físico, psicológico e emocional da primeira infância.

O Centro de Desenvolvimento Infantil da Universidade de Harvard elencou 8 descobertas sobre os cuidados com bebês durante a primeira infância. Um deles diz respeito ao fato de que bebês severamente negligenciados podem ser tão prejudicados quanto os que sofreram abusos ou foram vítimas de violência – um assunto silencioso e onipresente e que vai para além das marcas físicas da agressão infantil.

Segundo conclusões apresentadas pela pesquisa, entre os malefícios decorrentes da negligência parental encontram-se: deficiências cognitivas sérias, problemas de atenção e no desenvolvimento da linguagem, queda do rendimento escolar, dificuldade no processo de aprendizagem, traços comportamentais retraídos e problemas de interação social. Ainda segundo o estudo, essas marcas podem ser mais prejudiciais para o cérebro do que os traumas físicos – mesmo que recebam menos atenção – e tendem a se arrastar por toda a vida.  

Mas afinal de contas, o que é negligência parental?

Segundo Raquel Jandozza, psicóloga graduada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, pós-graduada em psicanálise pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e idealizadora do projeto Pré-natal emocional, a negligência por si só é um conceito complicado de se analisar, cultural e socialmente, e não pode ser punida por lei. “No Brasil, não existe propriamente uma legislação responsável por isso. No entanto, os Conselhos Tutelares são órgãos responsáveis por defender os direitos das crianças e dos adolescentes, mas mesmo no Estatuto da Criança e do Adolescente, não há punição específica para tal”, explica.

Para a especialista, a prática ainda pode ser definida da seguinte forma: “O ato de não cuidar da criança de maneira a não prover as necessidades básicas físicas, emocionais e psicológicas dessa criança. Diferentemente da violência física que traz consequências aparentes, a negligência é silenciosa. E por vezes, uma criança que esteja aparentemente nutrida e bem cuidada pode estar sendo negligenciada emocionalmente, na medida em que aqueles pais não demandam para aquela criança a atenção afetiva que ela precisa, principalmente no caso dos bebês”, esclarece.

Raquel também pontua que há nuances de negligência desenvolvidas a partir de ausência de estímulos afetivos. “Pequenos que são estimulados somente no campo cognitivo e motor carecem de vínculos afetivos que certamente gerarão alguns tipos de comprometimento como a dificuldade de vinculação e a insegurança. Então, é todo um conjunto de cuidados que está em jogo quando a gente fala de desenvolvimento infantil, principalmente na primeira infância, em que o cérebro humano atinge seu maior ápice evolutivo”, pontua.

O que causa a negligência parental?

Segundo aponta a especialista, há uma série de fatores que podem levar à negligência parental. Uma delas, certamente, é a quebra de expectativa dos pais quando o bebê nasce, porque mesmo que inconscientemente há uma idealização do bebê perfeito. “Crianças que nascem com algum tipo de deficiência ou síndrome também podem ser vítimas de negligência, porque precisam de cuidados especializados. E muitas vezes não são oferecidos porque a família não conseguiu lidar  emocionalmente com a quebra da expectativa do bebê idealizado. Isso acaba prejudicando a criança que pode não superar essas adversidades porque os pais não conseguiram lidar com isso de uma forma saudável anteriormente”, esclarece.

Para Raquel, a presença de uma equipe especializada que apoie a família como um todo é um dos pontos principais para que os pais consigam enxergar as dificuldades do filho sob um outro espectro. “É muito difícil lidar com esse diagnóstico, mas isso não quer dizer que eles não amem essa criança, e sim que ainda não são capazes de entender essa situação que pode ser melhor compreendida por uma visão de fora”, analisa.

Outro motivo que pode catalisar os descuidos durante a primeira infância, segundo a psicóloga,  são os problemas que surgem no caminho dos pais no puerpério (pós-parto). “Seja alguma ruptura emocional do casal, como um divórcio, a perda do emprego ou por algum outro contexto, os desdobramentos acabam afetando a criança, porque os pais tendem a se voltar para os próprios conflitos e deixam de investir o tempo, o afeto e o estímulo necessários para o filho”, adverte.

Uma violência silenciosa: Como se mostra e como evitá-la?

O caráter silencioso e pouco discutido da negligência parental acaba por fazer com que ela passe ainda mais despercebida. “Hoje, a gente está vendo um cenário bastante complicado de crianças que estão vestidas de forma bonita, que aparecem bem nas fotos com os familiares, mas quando olhamos com mais atenção, começamos a identificar os diferentes graus de negligências, as lacunas de cuidados”, comenta Raquel. Ela completa: “Muita gente só considera a negligência quando há o descuido visível, seja por meio das marcas de agressões físicas ou do cabelo mal penteado, quando na verdade as crianças são negligenciadas nas suas falas, nos seus pedidos, porque são submetidas a negligências veladas, em suas necessidades mais precoces, como por exemplo no medo de dormir, na enurese noturna”. A enurese é a perda involuntária de urina durante o sono.

Não há uma resolução exata para acabar com a negligência parental. No entanto, um dos pontos levantados pela especialista diz respeito ao sistema atual que corrobora para a construção de uma cultura de negligência. Como um efeito dominó, a sobrecarga na rotina das mães, a ausência do pai e a redução de políticas públicas e leis que assegurem o desenvolvimento adequado da primeira infância acabam por colaborar com essa situação. “Os profissionais, sejam eles da creche ou de qualquer outra instituição, que estão na linha de frente, no contato direto com as crianças, têm responsabilidade em observar o que está acontecendo e ajudar a ressaltar pontos que os cuidadores diretos não estão conseguindo ver. O trabalho deve ser feito em conjunto”, ressalta.

Raquel também coloca que o fortalecimento da rede de cuidados das crianças, com amigos próximos aos pais e a família estendida também desempenham um papel fundamental e benéfico no desenvolvimento infantil. “O afeto pode ser transformador, mas ele precisa de uma estrutura para se desenvolver, para se construir. As novas famílias precisam ser acolhidas, não basta ter um bebê e se fechar em uma redoma. Expandir as relações é uma das formas de ‘dar conta’, de modo que haja mais trocas entre as pessoas mais próximas, formando uma consistente rede de apoio”, finaliza.

Referências bibliográficas:

Center on the Developing Child – Harvard University – “8 Things to Remember about Child Development”.