Depressão infantil reflete problemas na relação entre criança e cuidador

Depressão em bebês reflete problemas na relação entre criança e cuidador

A depressão não é uma condição de saúde exclusiva dos adultos. Pessoas em qualquer faixa etária, incluindo as crianças até dois anos, podem desenvolvê-la quando têm predisposição genética ou sofrem gatilhos ambientais. Falar em um bebê depressivo soa até esquisito, mas a doença é uma realidade e precisa de tratamento.

Segundo Francisco Assumpção, coordenador do Departamento de Psiquiatria da Infância e da Adolescência da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), a depressão em bebês é rara e de difícil diagnóstico. Ela tende a aparecer principalmente quando há problemas na relação entre a criança e o cuidador.

“Alterações nessa relação podem ser gatilhos importantes no aparecimento desses quadros. Um exemplo bem banal é uma criança retirada do ambiente de cuidado e colocada em um ambiente institucional” explica. “Esses locais costumam designar uma pessoa específica para cuidar daquele bebê, para substituir a figura do cuidador. Se isso não é feito, ela começa a entrar em um quadro de apatia, irritabilidade e desinteresse pelo ambiente”, explica.

Os bebês são a população mais dependente de cuidados. Por consequência, são também as mais vulneráveis aos maus tratos. Quando são negligenciados ou vivem em ambientes conturbados, que afetem a relação com o cuidador, o emocional pode ser diretamente prejudicado.

De acordo com Francisco, a depressão normalmente aparece após os sete ou oito meses de idade. Um bebê abandonado antes dessa fase também pode se retrair, principalmente se tiver carência de interações e cuidados. No entanto, a partir dos sete meses ele já está apto a estabelecer relações diferenciadas com o mundo e consegue ter noções melhores do que acontece à sua volta.

Mãe deprimida, um fator de risco

A mãe deprimida pode ser um fator de risco para o bebê sob os pontos de vista biológico e comportamental. “Um indivíduo depressivo tende a não se relacionar da mesma forma com o ambiente que o não depressivo”, diz Francisco.

De acordo com o especialista, há trabalhos que avaliam os aspectos biológicos, levando em conta alterações metabólicas e hormonais na mãe e na própria criança. Há outras pesquisas que avaliam alterações na forma de o bebê se socializar precocemente quando há um caso de depressão tão próximo dele.

Geralmente, a mãe costuma ser o principal cuidador do bebê. Por isso, é preciso trabalhar bem essa relação, como a formação de vínculo e criação de um ambiente saudável. “Há muitos trabalhos que são vinculados ao apego em primatas. Pensando nos macacos, há determinados padrões de apego que geram formas diferentes de reações posteriores nos macaquinhos. Isso pode ser extrapolado para a espécie humana”, afirma. Por isso, para tratar um bebê com depressão, é preciso investir na melhoria da sua relação com o cuidador e com o mundo à sua volta.

Infelizmente, Francisco explica que há poucos profissionais que trabalham com a depressão em bebês no Brasil. Em países como a França, trabalha-se mais com noções e dinâmicas em relação à família. Por consequência, os distúrbios mentais na infância são mais abordados.

Se a depressão em bebês não é tratada, o indivíduo pode se desenvolver de forma prejudicada. Isso irá afetar a maneira como se relaciona com o ambiente e gerar vários desdobramentos, impactando desde a escolha de parceiros até a forma que irá cuidar dos filhos no futuro. “Esses cuidados são importantes. Temos que pensar a criança sempre como um ser em processo de desenvolvimento”, diz. “Qualquer coisa que aconteça nesse período altera essa curva de desenvolvimento e, consequentemente, a forma usual desse indivíduo existir”, finaliza.

Referências bibliográficas

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